quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Interpretação do Mito


  Atenção POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS A MINHA REVELIA





   

           [ este texto de minha autoria  já havia sido publicado na internet, porém não constando na lista dos "meus blogs" que consultei hoje (11/08/2016), quando iria apor algumas correções. O texto está revisto e não contem erros de digitação. Qualquer erro ortográfico ou hiatos de sentido devem ser creditados a sabotagem de invasores da conta.]
   Em 2025: ao rever este blog, constatei que está totalmente alterado. Os trechos da apresentação, I, II e III correspondem ao texto inicial que se seguia porém por um estudo das interpretações conhecidas do mito de Eros e Psiquê, como por exemplo a do junguiano Robert Johnson, no livro intitulado "Ela", interpretações que como a dele - que coloca a individuação na Grécia Antiga -  critico em minha interlocução, que continha também informação sobre a história da recepção do mito e temática correlata, a que acrescentei a minha leitura própria. Todo o meu trabalho nesse blog foi portanto roubado, com agravante de ter aparecido aqui textos meus que eu não lembro de forma alguma ter relacionado a esse meu estudo sobre o mito de Eros e Psiquê. Ignoro quem possa ser acusado de ter cometido tal ignomínia. 

                  Retirei daqui o texto que foi acrescentado sem qualquer autorização minha ou sequer informação de tamanha desfaçatez, tamanho mal caráter manipulando documentos do meu computador ofline e online. Estive na cyberdelegacia há doze anos atrás para registrar queixa contra invasão computacional em minha conta blogspot na internet que já havia sido constatada mas a polícia no Brasil apenas respondeu que não tinha nada a ver com isso. 

A interpretação do mito

                                          Eliane Colchete

                                  escrito em 2012


A linearidade da leitura do mito é o que se propaga quando ele é disseminado na outra palavra, no outro gênero, na sua paradoxal contrafacção “best-seller” - feita contudo como se fosse o próprio - assim o intelectual que é já personalidade e até feitio de corpo, em vez de ocupação, nas conhecidas versões dos “tipos” de pessoas, de que abusam os “ misticismos”. A essa altura a antiga frenologia já mudou para reflexologia, tendo deslocado-se para os pés – quem tem os artelhos tortos sofrerá de melancolia.
Aqui, em vez da sua reprodutibilidade, pretendo examinar a duplicidade do mito, a ambiguidade do que ele aparentemente “conta” - pois o outro da sua leitura espreita a cada palavra que utilizamos para “contá-lo”.
O Eros, como sabemos, submete psiquê à prova, mas ela não obtém êxito nisso. Ao desobedecer, expõe-se à errância, e é por compaixão – uma das faces de Eros, obviamente – que ele a resgata.
Mas por que o Eros se fere nas setas, em consequência de que se apaixona ? Se o Eros se fere, podemos jogar com as palavras, então ele tem uma alma – ele erra, ele titubeia. Em vez de ser interpretável somente como redutível a um princípio intelectual, uma realidade da alma que nela, porém, está sempre beirando o afastamento, por que a alma está unida à matéria, e o princípio é somente ideia, puro ser.
Os princípios intelectuais como o amor, a justiça, a soberania, etc., sendo o inteligível, como na interpretação neoplatônica, é a alma que participa deles ou que os contempla ou que neles reside enquanto somente alma – mas de fato a alma é a parcialidade do seu espelhamento da matéria. A alma reside, no autêntico dela mesma, no princípio; mas o princípio, em relação a alma, é um outro; tratando-se de Eros é um duplo que acompanha a alma, como o anjo da guarda cristão.
Mas os princípios intelectuais personificáveis como deuses, mesmo não sendo duplos desse modo do Eros pessoal, desempenham o mesmo papel em relação à alma do que é ao mesmo tempo natureza, autenticidade, identidade; mas mediato, interposto pelo que é avesso ao princípio, a materialidade, a contingência, a fugacidade, o ininteligível no entanto pensável, falável ou factível, como o erro. Eles são duplicados apenas enquanto sendo princípios ideais, são também deuses personificados.
Eros não apenas erra, ele também proíbe – nenhuma pergunta pode vir de Psiquê. Nenhuma curiosidade quanto à identidade de Eros, isso tanto mais eles vivem juntos no mesmo palácio “erótico”. Psiquê não pode divisar o semblante oculto de Eros, mas pode usufruir da sua convivência. Se Eros errou, feriu-se – não podemos nós aventar que é a alma já atuando que o faz precipitar o móvel do seu apaixonar-se? O poder, algum poder da alma é o que está sob a restrição da mais severa censura ao pensamento, censura porém inscrita na cena inicial do mito.
A alma é pura passividade no manifesto, no que se conta. É o objeto do amor e da proibição; como sujeito (da ação), é somente da imperfeição e do erro; é a sujeição aos trabalhos materiais impostos por Venus, mas nem isso ela propriamente desempenha, sendo intermediada pelos seres da natureza; é quando desiste de esperar que alcança o que almeja tão arduamente, mas como objeto da compaixão e/ou da sabedoria do perdão de Eros.
Se nos detemos, porém, no erro de Psiquê, vemos que ele consiste em Perguntar. Ela recircula, portanto, aquilo que havia ficado latente como censura antes da proibição, o inevitável pensar do poder da alma sobre Eros, ou da contaminação do anímico no inteligível – os deuses tem alma? Isso é o que foi proibido perguntar? Não sabemos bem o que não pode ser objeto de saber, mas entendemos o que era objeto do desejo – ver o semblante do amado. Contemplar o princípio inteligível, inversamente a Plotino, tornou-se o transgressivo prescrito na legislação do mito!
Se lêssemos o mito como um símbolo do poder da alma, isto é, como sua agência, o que contaríamos seria que Psiquê precipita o apaixonamento de Eros; ele resiste ao seu poder, ou teme que ela o sobrepuje, mas isso porque ele confunde seus próprios sentimentos de amor com sentimentos de posse, de domínio – ele quer tê-la sem que ela propriamente seja por sua conta o que queira ser, em vez da interpretação habitual de que ela quer somente “ser sua esposa”, quer “fazer tudo quanto ele queira”. Um tanto jocosamente isso significando apenas, na linguagem do intérprete corrente do mito de Eros, que ela aceita obedecer à proibição dele por que está, muito naturalmente, “dominada” por ele – no “bom” sentido do termo, isto é, apaixonada. Poder aqui está num sentido oposto a autoridade ou arbítrio, superioridade sobre o que se subjuga – inversamente, este é o caso da proibição de Eros. O “poder” da alma é sua potência, a efetividade do que ela faz sentir a outrem.
Mas continuando o nosso relato de Psiquê, ela o enrola, mesmo sem premeditação: finge aceitar as suas leis, mas assim que pode, traz a luz para contemplá-lo. O que esse ato implica não é somente algo feito às escondidas – ela é quem faz ver a ele a impossibilidade de resistir ao desejo. Mas essa impossibilidade é Eros – a sua face contemplável. A alma é agora o duplo de Eros, é ela quem o guia para que ele se encontre a ele mesmo.
Ele resiste, na errância da alma que é a sua, a afirmar a essência erótica que é desejo ou materialidade, o efetivo do ser. Mas a impossibilidade disso já estava inscrita desde sempre, não imediatamente por ser a alma “irresistível”, mas inversamente, por ser ela mesma o que não é capaz de resistir, ainda que seja o irresistível dessa alma que torna Eros aquiescente ao encontro da proscrita Psiquê, ou o que o torna incapaz de resistir à escolha do perdão.
É a alma que possui a sabedoria da essência – pelo que não há contraposição radical possível do ser ao ser, da essência à materialidade, dos acontecimentos à efetividade, dos princípios à sua contaminação recíproca, na sua precipitação ao conteúdo da experiência que é somente em que eles se tornam pensáveis. Há, sim, um intervalo impreenchível do ser inscrito na letra ao pensar, do ser ao saber da palavra. Complementaridade, aparentemente circular, do princípio ao relato onde ele se desconhece como tal, economia da palavra que deve trazê-lo à afirmação do efetivo; do ser, ao histórico do acontecimento, que se duplica num pensável em termos do inteligível ou princípio, a ideia.
Essa afirmação, contudo, a palavra falseia, ou instaura na ambiguidade, enquanto a afirmação se efetua na experiência - nesse caso, do perdão. Ela falseia necessariamente, pois não pode dizer a duplicidade do acontecimento e do que nele se libera senão como ideia, pensável. O princípio é deus e Eros; se ele atua a reaproximação, a ideia é sua face compassiva que une os momentos do relato no desfecho feliz que o realiza enquanto amor. Mas o acontecimento é o cancelamento da transgressão, se é que houve alguma. Pois, podemos ler como se o que tivesse tido lugar fosse a errância do Eros, figurada na aventura da alma e suas obrigações impostas no afastamento. Confusão do Eros: ele se pensa como posse e domínio, como unidade da voz que proíbe o desejo autônomo e comanda o sentimento alheio, mas precisa aprender que amar é dom da alma que cede por ser impossível não ceder, que participa dos dois domínios, sensível e inteligível, e se espelha, que só se compreende no elemento da alteridade.
Alma elevada a princípio: ser da alteridade que espelha o trajeto do outro. Experiência da pertença, Eros: em vez da identidade tautológica do princípio consigo mesmo, na exterioridade de que não há inteligibilidade.
O impensável da alteridade foi transposto da filosofia à letra do mito, mas não sabemos se é isso o que desde sempre o mito inscreveu. Tudo parece contribuir para interpretar o mito de Eros como a inserção da alteridade no incontornável pensamento do desejo, pois esse mito é ao mesmo tempo o da Alma. O mito de Eros contrapõe-se ao mito de Vênus. Neste o caráter explícito do desejo vai contra as aparências de que se trata da tematização da alteridade.
Inversamente, há um ingrediente exibicionista no mito de Venus que não consta no mito do Eros. O desejo não é propriamente desejado quando se trata de Venus, ele é imediatamente o cumprimento e a necessidade desse cumprimento. O desejo é reinserido na tautologia do princípio. Ser desejado dependeria do desejo ser atribuído a uma alma/sujeito que deseja, dependeria desse risco da transgressão e da errância, dessa duplicidade entre o ser e o saber que posiciona um intervalo, um movimento, em vez da tautologia, entre o desejo e o Amor que aceita conceber-se desejado por outrem sexuado, por outrem existente.
Alma faz ver o Amor, mas o que vemos não é o princípio tautológico do querer, é a alteridade da alma inscrita na trajetória do amadurecimento do Amor, ou da sua essencialização que não pode, justamente, estar dada no princípio, pois depende desse outro, dessa alteridade, da subjetividade que é Psiquê a subjetivar Eros que se torna o sujeito do perdão, ou seja, sujeito do reconhecimento de Psiquê como outrem amado e amante, em vez de apenas objetivamente possuído.
Eros anímico, o caráter dos princípios se relativiza para tornar pensável aquilo que a interpretação neoplatônica havia se dado por tarefa colocar do lado do impensável, do indesejável desejo de um sujeito – alma tendente à matéria, em vez de ao princípio, etc. Eros, duplo sujeito, eis o vinco ambíguo dobrado sob o relato mítico, da palavra à letra e ao que ela inscreve.
A interpretação da interpretação

I )

A categoria da interpretação tem estado sob rasura – do mesmo modo, para alguns, que para outros a ideologia. Ela nos impõe um dualismo do significado e do signo. Seu jogo reside na reserva dúbia entre uma semântica restritiva da materialidade do signo, que só está aí para encobrir o significado; e uma pragmática que não sabemos bem se deve ficar explícita ou implícita. Se a pragmática da interpretação se torna explícita, é para liberar mais categorias cujo papel é restringir o que o sujeito faz à coação semântica. Tudo o que ele faz é restringir-se à coação. Mas uma tal pragmática está sempre implícita como presença: a desse sujeito a quem se endereça o signo portador do sentido, ele também presença.
Interpretação sugere uma mística do sentido. Ele é nebuloso, está oculto no texto, envolto no signo. Este não importa. Está anulado pela pragmática implícita, e no entanto sempre ainda por anular pela pragmática explícita – atuação das categorias relativas ao sujeito do endereçamento que posto, está para anular-se; categorias dessa anulação.
Aqui a crítica da interpretação chegou a um impasse. Seu pecado imperdoável: a pragmática implícita. A interpretação depende de que haja um sujeito do endereçamento, que haja sujeito em geral, que o signo não tenha vigência senão por que há sujeito independente do texto/signo. Mas a consequência indesejável, pelo que isso é pecado, pelo qual isso não devia ser assim, é a pragmática explícita por onde a anulação do sujeito na interpretação propriamente dita, na recuperação do universal sentido jazente unicamente no texto/significado.
Mas não é da crítica essa culpa, e sim da interpretação – poder-se-ia retrucar. Ou do sujeito; ou de toda economia do signo como portador de significado, do texto como depósito do sentido de onde o sujeito tira sua necessidade propriamente hermenêutica. Se há sujeito, ele é sujeito da interpretação. Ele compreende, mas porque está do lado de cá do sentido, não do lado de lá do texto/signo. Mas a interpretação só é necessária por que há signo, e assim ao infinito do círculo da subjetividade.
O sujeito instala-se na transcendência. Aqui o que existe é ser/linguagem, a pragmática implícita dessa linguagem que se endereça, que só funciona endereçando-se a algo acima, na exterioridade ou na borda, ao olho que observa e compreende, ao sujeito da experiência possível. A linguagem, o que ela atua é a compossibilidade, mas não desde um vazio de sentido no qual ela escavaria sua mecânica, muito inversamente, dessa cumplicidade dos sujeitos nela e acima dela, vigentes “aí” e transcendentes a todo signo situado somente “aí”. Ao fazer-se na transcendência, no endereçamento, na sua anulação, a linguagem diz somente e sempre a realidade do sujeito transcendente, mas quanto a este, só é posto para anular-se como sujeito da linguagem
Compossibilidade como cumplicidade, impossibilidade do cálculo universal deslocado pelo sujeito universal, presença do sentido, pragmática explícita, tudo isso é uma visão da história. Onde se dá a cumplicidade e o porquê da pragmática, não só da semântica, ainda que aquela esteja construída inteiramente no pressuposto desta. O sentido se desloca ele mesmo, se faz histórico, por que os sujeitos mudam de sentido na experiência, na transcendência a todo signo.
Mas a linguagem sempre já condiciona o deslocamento – isso é História, o que está regrado pelo sentido, o que permite conceituar a experiência com sentido, o que impõe a apreensão do sentido na experiência. Ou isso é existência tal que um deus só pode ser, em vez de nesse sentido existir, porque o deus é sem mediação do signo, sem variação de linguagem. Ele fala o universal na exterioridade de toda língua especificável, ele fala o resíduo do cálculo, o significado antigo do universal (idea). Ele só, para falar adequadamente, atua, enquanto nós, como almas, falamos, isto é, indagamos continuamente do sentido e com isso nos portamos na transcendência que deixou de ser a idealidade, que se tornou movimento do sentido sobre todo jazer do signo.
O deus atua o mito, ele é sem mediação linguagem – tudo isso que aprisiona a interpretação do mito como uma saga do deus-idea, tanto mais que o que a ideia agora deva autorizar é o transporte do que atua à nossa possibilidade de fala. Compreendemos a ideia não mais como ideal, e sim como nossa experiência possível na e com a linguagem. A existência restou potência na variação dessa experiência, mas enquanto nada resta na exterioridade do sujeito da experiência, não há risco algum dessa variação transbordar o ato que põe a linguagem na transcendência, ao mesmo tempo como ser e como existência.
Ora, a transcendência só diz o sujeito. A interpretação só se justifica para o sujeito na transcendência. Mas se tudo o que temos é a restância da letra, como é que ainda poderia haver interpretação – de onde é que surgiu a transcendência? Nada na letra a instaura, não havendo como contrário desse nada alguma possibilidade ainda. Nunca inserimos o oposto desse nada como podendo ser tudo, note-se bem. O oposto do nada seria alguma coisa, alguma possibilidade da experiência na exterioridade da letra e ao mesmo tempo no que ela encobre, no seu mais íntimo. No seu intimismo - definimos assim contemporaneamente a saga e a linguagem. A transcendência. O sujeito.
A transcendência, movimento da ek-sistência, é o mais íntimo, é interioridade. O deus recusa intimidade; devemos descartar o signo. Nesses dois aportes, contudo, o que há é a contrafacção da oposição do antigo e do atual, pois trata-se entre os dois aportes de um mesmo, quando devia haver um outro. A crítica mais radical à interpretação.


II)

O deus recusa intimidades: ele é, sem mediação do signo, o sentido e a saga. Nós devemos descartar o signo, para na transcendência portar o interpretável, refazer o caminho e contar a saga a cada vez que se pronuncia linguagem. Nessa transcendência, na nossa intimidade e enquanto sujeitos, anulamos a mediação. Os dois extremos do ser e do existir tornaram-se um e o mesmo. O dualismo resulta apenas de uma noção mal construída que afirma o que de fato não sustenta. Ela sempre já pressupõe que a fronteira está entre o signo e o significado, entre a letra e o sujeito. Que existe o sujeito, antes ou na exterioridade da letra. Que o que existe aí é sempre já sujeito: destinatário e atuante da interpretação da letra.
Em vez da interpretação teríamos que ter somente leitura – aquilo que atua é tão somente a letra. Não na sua marca, mas na sua transgressão, na alteridade do signo sempre outro para o signo. Para o outro signo. Mas que restou da interpretação – enquanto signo? Se não instaurarmos o processo da interpretação, sua história, nós mesmos estamos atribuindo a ela um sentido na exterioridade da sua letra, nós a confundimos com uma sua leitura, nós a transformamos em uma hermenêutica. Há somente uma hermenêutica? Por que?
Rasuramos a interpretação e escrevemos nesse lugar hermenêutica.
Por hermenêutica inscrevemos o sujeito e a transcendência.
Foi assim que rasuramos a interpretação, o sujeito e a transcendência, mas somente, quanto a estes, enquanto sujeito e transcendência da interpretação. Inauguramos mais um círculo, um contra-círculo, ou apenas percorremos ao inverso a mesma circularidade, quando havia um desejo inscrito de ruptura do círculo, um anúncio de que isso havia sido feito. Não aconteceu Nada. Nem o círculo, nem a ruptura. Inscreveu-se um movimento em torno da História, ou da ausência dela? O desejo na positividade de um processo em processo de se instaurar na positividade do seu dever ser. É isso a que chamamos Necessidade: a positividade do que ela instaura, mas enquanto apenas esse instaurar-se da positividade, está o processo na transcendência? Ou no desejo? Ele deve responder à questão da sua Necessidade ou meramente instaurar-se e cumprir-se? Somos o sujeito dessa exigência dele ser, ou a atuação do seu vir a ser até aqui somente instaurado no seu dever ser? A resposta depende da letra ou da sua interpretação? Para onde vai a Hermenêutica?

III -

Esse encaminhamento da crítica à interpretação poderia ser contra-factado pela singela observação de que para a hermenêutica não se trata da Necessidade, mas sim da Liberdade. O argumento aqui não é bem, contudo, o eleático – por que há o ser, e não antes o nada?, ou seja, versando sobre a impossibilidade da atribuição, de qualquer afirmação regida pela cópula. É sim o argumento ontológico que pretende provar a existência de Deus pelo fato indiscutível de que temos a ideia de Deus, nessa ideia está contida a perfeição de Deus, e na Sua perfeição está contida a existência d'Ele. Se temos a ideia da Liberdade, é por que há sujeito, e justamente transcendente a toda Necessidade.
Aqui o recurso da argumentação crítica poderia ser dado como falho. Mostra a inconsistência do círculo que no entanto já começou ele mesmo afirmando-se círculo, mas – novamente o caso é “justo” - instalado como o lugar da Necessidade de modo que o sujeito que o afirma o transcende como Liberdade. A retroação crítica, no entanto, não foi atingida por esse meio porque ela não porta sobre a eliminação do movimento, ela somente indaga da preconcepção do movimento em termos de transcendência. Ela indaga. O movimento pode não ser senão o perguntar, o deslocar do não saber, de um não saber, em vez do não saber ser tradutível imediatamente como liberdade e operante do deslocamento. Em vez dele ser o Nada. Em vez da liberdade ser Nada. O não saber é o caráter do signo, é o que se pode atribuir não primeira ou imediatamente ao sujeito e sim à letra.
Porta a letra aquilo que ela essencialmente desconhece?
Nós dizemos que o signo é alguma coisa que porta sobre outra coisa, mas agora, ao que parece, a crítica quis corrigir essa afirmação: o signo é alguma coisa que porta sobre outro signo. Ora, em todo caso há sujeito. O movimento do portar é o transcender de que não se fez de fato qualquer superação – qualquer metalinguagem, o que desde o início foi dado como impossível, eis a necessidade do círculo. Além disso, porém, a crítica pode se manter. Pois, em todo caso há sujeito, mas o sujeito é o que está para ser anulado no signo. Somente porta sobre, somente está para – eis a transcendência e o círculo, e o Nada transpondo o horizonte da Liberdade. Niilismo europeu. Quanto ao Nada, sendo liberdade, nós só somos livres, só afrontamos o círculo, para constatar que isso é o que nunca devíamos ter feito, ainda que nunca fosse a nós possível ter evitado a transgressão, mas se permanecemos vivos é por que afrontamos a finitude, o nada de nós mesmos na transgressão do círculo, e regressamos a ele, não o contrário, sendo bem que a finitude era que nunca de fato dele poderíamos nos evadir.
Witter? Se há liberdade na exterioridade do círculo, ainda não foi o que a crítica afirmou seu desejo afirmar.
Mas a interpretação não afirmou por sua vez nenhum desejo entre a coisa e o signo. Ela foi dada como hermenêutica. A polissemia aqui não seria aplicável realmente, e é por isso que o processo é o que está no lugar do desejo enunciado, apenas. Ele apela a uma proliferação que não do sentido, mas do termo. A polissemia é a concomitância de vários significados a um mesmo termo, mas a proliferação é o banimento de um significado na vigência de outro. A impossibilidade de ver um significado na vigência do outro.
O processo é ainda indagação – mas quem indaga? O que se indaga é se há um só ou vários termos proliferando-se na sonoridade/grafia da “interpretação”. Se houve alguma vez a interpretação da letra, em vez do “signo”. Ou se podia haver. Indagação que não atribuímos nem ao círculo nem à crítica. Indagação recursiva da Interpretação.
     
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              espaço dos  trechos roubados do meu blog por canalha fascínora nojento prostituta ou quejandos 


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